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Artigo: Central Lapidar de Monitoramento Integrado, Inteligência e Inovação


Fonte: imagem/TJMG


Por GILSON SOARES LEMES — Desembargador, presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais


O sociólogo, filósofo e professor polonês Zygmunt Bauman cunhou um dos conceitos que melhor expressam os tempos contemporâneos, na minha avaliação: o de “modernidade líquida”, em referência ao fato de que vivemos um mundo propenso a mudar com muita rapidez e de maneira imprevisível. Em uma de suas frases mais notórias, ele disse: “Vivemos tempos líquidos. Nada foi feito para durar”. De fato, vivemos uma era em que diversos aspectos da vida humana vêm sendo profundamente impactados, de maneira acelerada, sobretudo pelas novas tecnologias. Trata-se de um presente marcado não apenas pela fluidez, como defende o pensador Bauman, mas também pela presença cada vez maior das inovações tecnológicas no nosso cotidiano. Com o surgimento da internet e das redes sociais, um outro fenômeno emergiu, nas últimas duas décadas: o fato de que precisamos administrar, diariamente, a imensa quantidade de informações que temos hoje à nossa disposição. Em um celular, na palma da nossa mão, cabem milhares de bibliotecas.

Neste cenário, um dos grandes desafios com que precisamos lidar se refere a como gerir esse gigantesco volume de dados e informações, para que possam, efetivamente, produzir conhecimento. A gestão da informação tornou- se, assim, uma das questões mais estratégicas e sensíveis para qualquer instituição. É dessa constatação, de que uma boa gestão da informação exerce papel imprescindível na atualidade, que surgiu a Central Lapidar de Monitoramento Integrado, Inteligência e Inovação do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, que tivemos a satisfação de inaugurar como um marco do primeiro ano de gestão da Corte mineira. O espaço irá reunir e tratar, de maneira estratégica e centralizada, a imensa massa de dados produzidos no Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

A Central Lapidar irá integrar a estrutura da Secretaria de Governança e Gestão Estratégica, criada recentemente no TJMG. A nova secretaria terá como objetivo facilitar e alinhar o gerenciamento e a execução dos atos administrativos e jurisdicionais, a comunicação entre as áreas operacionais e as diretrizes institucionais. Será ainda o braço da Presidência, responsável por promover a adoção das melhores práticas de governança para assegurar a assertividade das decisões estratégicas e o funcionamento eficiente de todas as unidades, em prol da efetiva prestação jurisdicional.

A escolha do nome para a central de monitoramento integrado, inteligência e inovação não poderia ser mais feliz. A lapidação é o ofício de trabalhar a pedra ou o metal em seu estado bruto, para fazer surgir desse processo uma peça mais bela e de mais qualidade. É algo que agrega valor a um material em seu estado original. A analogia é perfeita com o que acontecerá na Central, com os dados de natureza diversa produzidos pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Em um espaço integrado, uma equipe altamente qualificada, usando tecnologia de ponta e as mais modernas ferramentas de análise de dados, irá trabalhar as informações, de maneira eficiente, segura e ágil. O objetivo é permitir que os dados, uma vez lapidados, possam gerar reflexões críticas e conhecimento. Assim, eles poderão se transformar, efetivamente, em uma ferramenta a mais para subsidiar nossas tomadas de decisões.

Sabemos que, entre tantos princípios que devem sustentar uma gestão eficiente e pautada no interesse público, figura o conceito de transparência. A Central Lapidar também se presta a isto: a dar visibilidade ampla e reunir diversas informações que se encontram espalhadas pelo Judiciário mineiro e que, uma vez reunidas e trabalhadas de maneira inteligente, poderão nortear ações estratégicas. Essa é mais uma ação que posiciona o Judiciário mineiro entre as instituições de vanguarda, comprometidas com as mudanças exigidas pela contemporaneidade.


Não poderia deixar de registrar minha gratidão ao ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU), que prestigiou o Tribunal de Justiça de Minas Gerais com a sua honrosa presença na inauguração da Central. O ministro Augusto Nardes esteve conosco em maio deste ano, por ocasião da 1ª Semana de Integridade do TJMG, evento que representou um marco histórico para a Corte mineira, pioneira no país por ter lançado iniciativa exclusiva de combate à prática de corrupção e fraudes, quando nos brindou com uma brilhante palestra sobre governança na administração pública, destacando-a como ferramenta para a integridade. Esse apoio que o Tribunal de Contas tem dado ao Poder Judiciário mineiro, incentivando as nossas iniciativas que buscam aperfeiçoar a Justiça estadual de Minas, para que ela possa continuar cumprindo sua nobre missão, cada vez com mais excelência. Assumimos a alta administração da segunda maior Corte estadual do país, em um momento sem precedentes. Como destaquei recentemente, por ocasião da posse de dois novos desembargadores, a crise sanitária provocada pela pandemia de covid-19 tem testado profundamente nossa capacidade de resiliência, nossa disposição para buscar soluções inovadoras e nossa competência para tomar decisões rápidas e corajosas.

Nesses tempos difíceis, o Judiciário mineiro tem perseguido o objetivo de equilibrar a continuação da prestação jurisdicional, com qualidade e celeridade, com o cuidado com a saúde de todos — desembargadores, juízes, promotores, operadores do direito, servidores, colaboradores, estagiários e jurisdicionados. Tem sido uma jornada de muita aprendizagem e de importantes avanços. Mas, sabemos que podemos fazer mais e melhor, e estamos permanentemente trilhando o caminho do aperfeiçoamento contínuo. É uma grande honra poder dividir essa jornada ao lado de magistrados tão comprometidos e qualificados.

Agradeço, ainda, a todas as equipes que já vinham arduamente se empenhando para a criação de painéis de controle dinâmicos e inteligentes, bem como àquelas que atuaram nos bastidores para dotar a Central Lapidar de todos os recursos, ferramentas e equipamentos necessários para dar vida a este espaço. Meu muito obrigado também aos qualificados profissionais que irão atuar aqui, e que irão diuturnamente se debruçar sobre os dados brutos,lapidando-os com arte e inteligência, para que se transformem em preciosos conhecimentos.

Cito novamente aqui o sociólogo Bauman, que disse: “Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem.” O que estamos a fazer aqui é isso: questionar os dados, extraindo deles o que possuem de melhor: a possibilidade de nos oferecerem respostas para os dilemas contemporâneos que nos inquietam. Que Deus abençoe e guarde todos nós!